O ENSINAMENTO DAS
ESCRITURAS E DA TEOLOGIA SOBRE O DEVER DO MOMENTO PRESENTE.
São Paulo escreveu
na I Epístola aos Coríntios, X, 31: “Ou comais ou bebais, ou façais qualquer
outra coisa, fazei tudo para a glória de Deus”. — Também em Colossenses, III,
17: “Tudo o que fizerdes, em palavras ou por obras, (fazei) tudo em nome do
Senhor Jesus Cristo, dando por ele graças a Deus Pai”.
Nosso Senhor disse,
como conta São Mateus, XII, 34: “A boca fala da abundância do coração. O homem
bom tira boas coisas do bom tesouro do seu coração; e o mau tira coisas más do
mau tesouro. Ora, eu digo-vos que, de qualquer palavra ociosa que disseram, os
homens darão conta no dia do Juízo”.
Santo Tomás mostra
todo o sentido e o alcance desta doutrina quando ensina (Ia IIae, q. 18, a. 9)
que não há ato deliberado que,
concretamente considerado, “hic e nunc”, seja moralmente indiferente;
cada um de nossos atos deliberados é ou bom ou mau. Por quê? Porque todo ato
deliberado de um ser inteligente deve ser racional ou ordenado a um fim bom,
bom em si mesmo; e todo ato deliberado de um cristão deve ser ordenado, ao menos virtualmente, a
Deus. Se for assim, será um ato bom; se não for assim, será um ato mau.
Não há meio termo. Mesmo nossas recreações, nossos divertimentos, nossos
passeios devem ter um fim bom em si. É verdade que ir passear, considerado
abstratamente, é indiferente. Também pode ser indiferente ir passear aqui ou
ali, mas o passeio deve ter um fim racional, como por exemplo, o de reparar
nossas forças, para retomarmos depois o trabalho que devemos realizar. Por isso
mesmo, os divertimentos têm um sentido moral e um valor próprio na vida do ser
racional.
Como diria de modo
simbólico um bom pregador, todos os nossos atos deliberados são como as gotas
de chuva que caem do alto da montanha, na linha divisória das águas; destas
gotas de chuva, algumas irão para um rio e um oceano; as outras, para outro rio
e outro mar, oposto e distante. Assim também nossos atos vão para o bem, isto é
para Deus ou para o mal. Nenhum desses atos, tomados na realidade concreta da
vida, é indiferente.
À primeira vista,
esta doutrina parece muito rígida. Mas não é: basta uma intenção virtual ou
implícita, renovada pela manhã no momento da oração, e também cada vez que o
Espírito Santo nos faz elevar nossos corações para Deus.
Esta é, muito pelo
contrário, uma doutrina consoladora, pois, segue-se daí, que na vida do justo, todo ato deliberado é bom
e meritório, seja fácil ou difícil, pequeno ou grande.
Esta doutrina é
também santificante se a entendermos bem e a vivemos, pois nos leva a pensar
que o que Deus faz a cada momento é bem feito e cada acontecimento é um sinal
de sua vontade. Assim Jó, privado de tudo, via nessa privação uma vontade de
Deus que o provava para o santificar e em vez de maldizer aquele minuto tão
penoso, bendizia o nome do Senhor. Aprendamos pois a reconhecer, no que
acontece a cada momento, seja uma vontade positiva de Deus, seja uma permissão
divina, sempre ordenada a um bem superior. Assim, aconteça o que acontecer,
sempre guardaremos a paz.
São Francisco de
Sales resumiu toda esta doutrina nestas poucas palavras: “Cada momento que
chega até nós encerra em si uma ordem de Deus, e irá mergulhar na eternidade,
permanecendo para sempre aquilo que dele fizemos”.
Este reconhecimento
quase constante da vontade divina, discernida do dever do momento presente,
decorre sobretudo do dom da Sabedoria que faz ver em Deus, causa primeira e fim
último, todos os acontecimentos, tanto os penosos quanto os agradáveis. É por
isto que Santo Agostinho diz que a esse dom corresponde a bem-aventurança dos
pacíficos, quer dizer, daqueles que conservam a paz onde os outros se perturbam
e que muitas vezes levam a paz aos mais perturbados: “Beati pacifici, quia
filii Dei vocabuntur”

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